Embora uma recuperação mais acelerada do que se esperava da atividade econômica esteja em curso, como apontado pelo Banco Central, o caminho para que a taxa básica de juros permaneça nas mínimas históricas continua em vigor. O nível de ociosidade da economia volta a ser o tema da vez e, diante de cenários que apontam para uma inflação em níveis bastante comportados, nem mesmo revisões positivas para o crescimento econômico têm alterado as projeções para a taxa Selic.

“Diante da inflação abaixo da meta e da atividade abaixo do potencial, nosso cenário básico contempla taxa Selic estável em 2% até o primeiro trimestre de 2022, quando projetamos o início de uma gradual retirada dos estímulos”, diz, em relatório enviado a clientes, a equipe de macroeconomia do Santander, que tem a ex-secretária do Tesouro Ana Paula Vescovi como economista-chefe. O banco alterou nesta semana suas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, de um tombo de 6,4% para uma queda de 4,8%, e passou a estimar crescimento de 3,4% em 2021 ante 4,2% anteriormente.

O cenário básico do Santander contempla, ainda, uma inflação de 2,3% neste ano e de 2,7% em 2021, abaixo do centro da meta (3,75%). Para 2022, o banco também espera IPCA abaixo da meta (3,5%), ao projetar o indicador em 3,2%. “É importante ressaltar que a principal hipótese neste cenário é a manutenção da eficácia do teto constitucional de gastos, que desempenha papel fundamental para a ancoragem das expectativas de inflação”, dizem os economistas do banco.

De acordo com o Santander, no caso hipotético de mudanças importantes no regime fiscal que colocassem em risco a credibilidade do processo de consolidação fiscal pós-pandemia, as condições para o “forward guidance” implementado pelo BC seriam violadas, “gerando riscos consideráveis de alta para a inflação e taxas de juros no médio prazo”. Assim, os economistas do banco entendem que os riscos fiscais são a principal ameaça à política monetária.

Visão semelhante é adotada pelo Morgan Stanley, que elevou sua projeção de crescimento econômico no Brasil em 2021 de 3,2% para 3,6%, depois de uma queda de 4,5% esperada para o PIB deste ano. Os economistas Fernando Sedano, Thiago Machado e Lucas Almeida esperam que a demanda doméstica brasileira tenha uma performance melhor do que a do México, com consumidores e negócios em melhor posição para contribuir com a retomada.

O Morgan Stanley também aponta que, se o Brasil não perder sua âncora fiscal, o retorno da agenda de reformas e uma política monetária expansionista devem fomentar o consumo e os investimentos. “Nossa visão é que pode haver um limite (de tamanho e tempo) para uma escorregada fiscal no Brasil, mas não um abandono total do teto de gastos”, escrevem os economista em relatório enviado a clientes. Embora tenha alterado suas projeções de PIB, o banco americano continua a projetar o IPCA em 3,4% em 2021 e o início de uma normalização monetária que leve a Selic em 3% em dezembro do próximo ano.

Apesar de haver certa discordância no mercado sobre o início do processo de normalização da política monetária, a visão majoritária continua a ser a de que a taxa de juros se manterá baixa por um período prolongado, o que dialoga com o cenário adotado pelo Banco Central de que o ambiente econômico prescreve “estímulo monetário extraordinariamente elevado”.

Para Joan Enric Domene, economista sênior da consultoria Oxford Economics, a semana acabou por confirmar a postura mais cautelosa do Banco Central, que voltou a indicar que o espaço para flexibilização adicional da política monetária é mínimo ou nulo, apesar das expectativas de inflação abaixo da meta. “Na última reunião, o Copom decidiu pausar o ciclo de afrouxamento com os juros em 2%, enquanto se compromete a encaminhar um ‘guidance’ de ‘lower for longer’ (baixo por mais tempo) para equilibrar os riscos para o mercado financeiro e a deterioração das contas públicas.”

A Oxford Economics era a única casa que defendia um corte de 0,25 ponto percentual no juro básico na reunião deste mês do Copom entre 79 consultadas pelo Valor. Agora, de acordo com Domene, a consultoria alterou sua projeção. “Esperamos agora que a taxa básica de juros permaneça em 2% no futuro previsível [para a política monetária.”

Já o economista-chefe para América Latina do Société Générale, Dev Ashish, manteve sua projeção de um novo corte de 0,25 ponto na Selic ainda este ano, para 1,75%, embora ressalte que a autoridade monetária tenha elevado o sarrafo para reduções adicionais no juro básico. “Não esperamos altas de juros em 2021. No entanto, com o taxa real já negativa e o real sob pressão consistente, o espaço para afrouxamento adicional pode ser muito pequeno, a menos que o BC e o mercado estejam realmente convencidos de que a trajetória fiscal é totalmente sustentável”, afirma Ashish.

E é diante da cautela do BC em relação às perspectivas fiscais que os economistas do BTG Pactual também veem a Selic inalterada em 2% por um período prolongado, enquanto a autoridade monetária avalia o hiato do produto, as discrepâncias entre os setores da economia e os riscos de uma retomada mais gradual quando os programas pró-renda forem eliminados. “De modo geral, possíveis mudanças no quadro fiscal ainda são a principal fonte de risco para a mensagem do ‘forward guidance’ e para o cenário de política monetária”, afirmam Claudio Ferraz, Lilian Ferro e Bruno Balassiano.

Assim, os economistas do BTG não descartam que a normalização da política monetária tenha início somente em 2022, “mas, por enquanto, mantemos nossa visão de que esse processo começará a partir do quarto trimestre do próximo ano, conforme 2022 e 2023 ganhem importância no horizonte da política monetária”. Para o banco, o ritmo de recuperação, uma menor incerteza nas perspectivas fiscais e cenários de câmbio mais apreciado permanentemente “são questões que continuamos monitorando”.

— Foto: Chronis Yan/Unsplash



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